Revista Rio Pará nº 04: Agricultura e natureza lado a lado

13/03/2026 - 14:09

Como os Sistemas Agroflorestais aliam produção e preservação ambiental de forma sustentável

Na comunidade de Olhos d’Água, em Carmo do Cajuru, região do Médio Rio Pará, o produtor rural Marciano Camargos vive uma realidade que muitos agricultores consideram ideal: cultivar alimentos de forma sustentável, sem agredir a natureza, e ainda garantir renda para sustentar a família. A pequena propriedade, localizada às margens do Córrego Sapé, possui um terreno íngreme — o que sempre trouxe desafios ao plantio. Mas, hoje, esse mesmo terreno é exemplo de uso consciente da terra, graças à implantação de um Sistema Agroflorestal (SAF).

Há cerca de dez anos, quando comprou o terreno de aproximadamente 3.200 m², Marciano começou a cultivar hortaliças, frutas e legumes. As dificuldades com o relevo limitavam a expansão da lavoura e, por consequência, o aumento da renda. A virada veio quando o CBH do Rio Pará implementou o Programa de Conservação Ambiental e Produção de Água na microbacia do Córrego Sapé. Marciano foi um dos agricultores contemplados com a implantação de um SAF em sua propriedade. “Eu sempre tive cuidado com o meio ambiente. Nunca usei veneno na minha plantação. Quando conheci o projeto, vi que era possível produzir mais sem destruir a terra. Agora sei que estou deixando algo melhor para os meus filhos”, conta.

Produtor rural Marciano Camargos colhe os frutos de uma agricultura mais consciente:
com o SAF, ele alia renda, sustentabilidade e preservação do solo às margens do Córrego Sapé.

 

O QUE SÃO OS SAFS?

Os Sistemas Agroflorestais são formas de uso e manejo da terra em que espécies agrícolas e florestais são cultivadas de forma integrada, em um arranjo que busca imitar a lógica dos ecossistemas naturais. Ou seja, é como se a lavoura e a floresta trabalhassem juntas, promovendo equilíbrio ecológico, recuperação do solo e produção contínua de alimentos.

Diferente do modelo tradicional de monocultura, que desgasta o solo e demanda grandes quantidades de insumos químicos, os SAFs são sistemas biodiversos, que combinam espécies florestais (como árvores nativas, frutíferas ou madeireiras), culturas agrícolas (hortaliças, raízes, grãos), plantas perenes e arbustivas (como banana, café, mamão, ervas medicinais) e, em alguns casos, até animais, em sistemas integrados.

A combinação das espécies é feita de forma estratégica, considerando aspectos como o ciclo de vida de cada planta (curto, médio e longo prazo), a altura e cobertura das copas, as necessidades e funções ecológicas (sombreamento, fixação de nitrogênio, adubação verde) e o impacto no solo, na água e na biodiversidade local.

COMO FUNCIONAM NA PRÁTICA

Na propriedade de Marciano, o SAF implantado incluiu o plantio de cerca de 300 mudas, entre oliveiras, bananeiras, mamoeiros e outras espécies adaptadas ao clima local. A área escolhida fica próxima ao Córrego Sapé, uma Área de Preservação Permanente (APP). Com o SAF, ele conseguiu tornar esse espaço produtivo e, ao mesmo tempo, cumprir a legislação ambiental.

A implantação do sistema contou com estudo do terreno, clima e histórico de uso do solo; escolha das espécies, com base no perfil produtivo e na função ecológica de cada planta; planejamento dos consórcios, ou seja, quais culturas seriam plantadas juntas e em que espaçamento; implantação em etapas, com acompanhamento técnico; e manejo contínuo, envolvendo podas, adubação orgânica e colheita planejada.

A lógica dos SAFs prevê que, enquanto colheitas de curto prazo (como hortaliças e frutas) garantem renda rápida, as espécies de crescimento mais lento (como árvores frutíferas e madeireiras) vão se desenvolvendo e oferecendo benefícios a médio e longo prazo — tanto ecológicos quanto econômicos. “A microbacia do Ribeirão do Sapé já passou por momentos críticos de escassez hídrica, consequência do desmatamento e do uso inadequado do solo. A implantação do SAF vem para reverter esse cenário, pois alia a produção agrícola à preservação ambiental. Com a recuperação da cobertura vegetal, aumenta-se a infiltração da água no solo, reduzindo a erosão e favorecendo a recarga dos mananciais. Além disso, o sistema agroflorestal contribui para a proteção das nascentes, melhora a qualidade da água e garante mais sustentabilidade para os agricultores da região. É uma estratégia que ajuda a cuidar do meio ambiente e, ao mesmo tempo, fortalece a economia local”, comenta Jéssica Bolina, superintendente de Meio Ambiente de Carmo do Cajuru e conselheira do CBH do Rio Pará.

Intervenções como o cercamento de nascentes e APPs ajudam a proteger os recursos hídricos e criam as condições ideais para a recuperação da vegetação nativa na bacia do Rio Pará.

 

BENEFÍCIOS PARA QUEM PLANTA E PARA O PLANETA

Durante a implantação do projeto, o biólogo Igor Madeira, da empresa Embaúba Ambiental, contratada pelo Comitê para execução das intervenções em Carmo do Cajuru, explicou à comunidade que os SAFs são uma ferramenta poderosa de transição ecológica. “Os Sistemas Agroflorestais são modelos produtivos alinhados com o Código Florestal e a Lei da Mata Atlântica. Eles permitem o desenvolvimento econômico com responsabilidade ambiental. É uma alternativa sustentável, assim como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). O mais importante é buscar equilíbrio: produzir alimentos e gerar renda sem abrir mão da conservação dos recursos naturais.”

Além dos benefícios econômicos — como produção diversificada e renda o ano todo — os SAFs também:

  • Recuperam o solo, aumentando sua fertilidade natural;
  • Protegem as nascentes e evitam o assoreamento de rios;
  • Estimulam o retorno da fauna e flora locais;
  • Reduzem a necessidade de insumos químicos;
  • Contribuem para a captura de carbono, ajudando no combate às mudanças climáticas.

 

O FUTURO DA AGRICULTURA SUSTENTÁVEL

Com os SAFs, os agricultores podem produzir com mais segurança e estabilidade, mesmo em áreas de difícil manejo, como encostas e APPs. O sistema promove resiliência agrícola, pois, ao diversificar a produção, reduz-se o risco de perda total em caso de pragas, seca ou mudanças bruscas no mercado.

Para Marciano, os benefícios já são visíveis. “Hoje, tenho mais variedade de alimentos para vender e também para consumo da família. E o mais importante: vejo a natureza se recuperando ao meu redor.”

Em um cenário de crescente preocupação com o meio ambiente e com a segurança alimentar, os Sistemas Agroflorestais representam uma alternativa concreta e eficaz para aliar produção e conservação. Em Carmo do Cajuru, essa união já dá frutos — e inspira outras comunidades a seguirem o mesmo caminho.

SAF permite produzir alimentos saudáveis e valorizar o trabalho no campo.

 


Assessoria de Comunicação do CBH do Rio Pará:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
Texto: Henrique Ribeiro
Fotos: Udner Rios

 

Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pará

Compartilhe