Revista Rio Pará nº 04: História Preservada

04/03/2026 - 13:14

Pitangui: o berço histórico e cultural tricentenário da bacia do Rio Pará

Subindo as ladeiras de pedra e andando pelos casarões centenários, quem circula por Pitangui viaja no tempo. O município do Baixo Rio Pará, a cerca de 150 km de Belo Horizonte, é um dos mais antigos da região Centro-Oeste do estado. Rodeada de montanhas e belas paisagens, Pitangui guarda histórias da época dos bandeirantes e encanta moradores e visitantes.

Registros históricos apontam que as primeiras explorações de bandeiras paulistas a esta parte de Minas começaram ainda em 1601. O Rio Pará e o Rio São João tiveram uma importância inestimável no desenvolvimento da região, com hidrografia privilegiada, permitindo a exploração mineradora em busca de ouro e metais preciosos, ramificando o comércio e favorecendo a criação de atividades agrícolas.

Israel Almeida, historiador e agente cultural, é um dos guardiões da memória de Pitangui. Atua no Instituto Histórico da cidade, referência na preservação do patrimônio documental da região.

 

Pitangui chegou a ser conhecida como Sétima Vila do Ouro de Minas Gerais, tamanha era a importância da mineração por lá. O número de bandeirantes e mineradores foi crescendo com o passar do tempo, até que em 1715 o arraial foi elevado à categoria de vila, recebendo o nome de Vila de Nossa Senhora da Piedade de Pitangui, passando a ter a própria administração. “Pitangui, por vezes chamada de Mãe do Centro-Oeste mineiro, recebe esse título devido às notórias atividades de explorações das bandeiras paulistas datadas desde 1601 nesta áurea região e ainda os levantes armados, evocados por grandes personalidades de nossa memória”, explica Israel Almeida, historiador, agente cultural e arquivista do Instituto Histórico de Pitangui.

Ele explica que, após a criação da Vila de Nossa Senhora da Piedade de Pitangui, a região se expandiu ainda mais. Tanto é que, anos depois, o vasto território original deu origem a diversos municípios importantes, como Pará de Minas, Nova Serrana, Martinho Campos e Conceição do Pará. A fragmentação começou principalmente a partir do século XIX, à medida que novos povoados se consolidavam e conquistavam autonomia política.

 

UM PASSEIO NO TEMPO

O historiador Israel Almeida explica que o nome da cidade tem origem na língua tupi-guarani e carrega o significado ‘O rio das crianças’ (pitanga = criança, y = rio/água). O Rio Pará, que passa a alguns quilômetros do centro urbano, faz parte das belezas que o visitante pode conhecer. Na divisa com Conceição do Pará, município vizinho, existe a Estação Velho do Taipa, antiga construção da ferrovia, que hoje funciona como museu.

Ao perambular pelas ruas do centro, o contraste entre o novo e o antigo. Pitangui hoje é uma cidade desenvolvida, com muitas empresas e economia forte. Mas em meio à modernidade, o passado sempre se realça, com construções que permitem uma viagem no tempo. São muitos casarões coloniais, construções com estilos ecléticos e um verdadeiro museu a céu aberto que encanta os amantes da arquitetura.

Fazenda Ponte Alta, símbolo da história rural de Pitangui. O imóvel pertenceu a Maria Tangará, uma das mulheres mais emblemáticas da tradição local.

 

“O marco zero de nossa cidade é a Praça dos Bandeirantes, onde se encontra a Capela de Nossa Senhora da Penha de Pitangui, no bairro Penha. Construída em 1715 a mando de Antônio Rodrigues Velho – o Velho da Taipa – e José de Campos Bicudo, ela exibe arquitetura barroca romana e evoca a devoção à primeira Santa de nosso arraial, no mesmo período em que nos tornamos Vila de Nossa Senhora da Piedade de Pitangui”, explica entusiasmadamente Israel.

As igrejas históricas compõem a paisagem de Pitangui. A Igreja do Senhor Bom Jesus é a mais antiga do perímetro urbano, construída em 1748, guardando uma riqueza arquitetônica e religiosa inestimável. Na praça Getúlio Vargas, também conhecida como Largo da Matriz, a Igreja de Nossa Senhora do Pilar se destaca. É a quarta matriz erguida no local e substituiu a antiga que foi destruída por um incêndio anos atrás. Nas escadarias em frente à Matriz estão sepultados os restos mortais de Padre Belchior Pinheiro de Oliveira, figura emblemática na história de Pitangui e de Minas Gerais. Ele foi conselheiro pessoal de Dom Pedro I e confidente legal do imperador.

Outro ponto importante é o Instituto Histórico de Pitangui, que fica em um casarão imponente na região central da cidade. O local foi fundado em 1960 e é responsável pela salvaguarda do maior acervo bibliográfico do Centro-Oeste mineiro, com documentos datados desde o início do século XVIII.

 

Imagem de Nossa Senhora das Dores, ícone da fé pitanguiense, preservada após o incêndio que destruiu a antiga matriz em 1914. Hoje, é um símbolo de resistência e devoção da comunidade.

 

LUGAR QUE ENCANTA

Ao chegar a Pitangui não é difícil encontrar alguém que convide o visitante para um café e uma conversa sobre a história da cidade. Quem vive por lá costuma ser apaixonado pela herança que o passado deixou. “É uma cidade linda, com casarões históricos, igrejas centenárias. Uma cidade com características barrocas, com casas ao redor das igrejas, ladeiras e ruas íngremes e centenárias. E um povo acolhedor”, fala Maria José Valério, de 78 anos, nascida e criada em Pitangui.

Maria José foi professora, além de secretária de cultura e educação de Pitangui. Ela faz questão de destacar a importância de personagens marcantes da história da cidade. “Destaco nossas duas matriarcas, que é a Joaquina de Pompéu e a Maria Tangará. A fazenda da Joaquina estava dentro dos limites de Pitangui. Aqui temos muitos casos, temos o nosso folclore e muita coisa para contar e mostrar a quem nos visita”.

Hoje, um dos maiores desafios de Pitangui é preservar o passado olhando para o futuro, cuidando do patrimônio histórico sem renunciar ao desenvolvimento da cidade. “Pitangui tem um compromisso profundo com suas raízes e com a natureza que nos cerca. Nosso desafio diário é equilibrar o respeito pela história de 310 anos, preservando casarões, igrejas e tradições culturais, com a necessidade de preparar a cidade para o futuro – e isso também significa proteger os córregos que cortam o município”, conta Maria Lúcia Cardoso, prefeita de Pitangui.

Ainda segundo ela, um passo importante foi a construção da primeira Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do município, que hoje atende cerca de 600 famílias e garante o tratamento de 80% do esgoto gerado. “Estamos ainda trabalhando em um projeto para extinguir o lixão da cidade e avançar em uma política de saneamento básico que leve o tratamento de esgoto a todo o município”, finaliza a prefeita.

 

A imponente Matriz de Nossa Senhora do Pilar domina a paisagem do Largo da Matriz. Erguida apaós o incêndio da antiga igreja, mescla elementos neoclássicos e neogóticos em sua arquitetura.

 


Veja mais fotos de Pitangui!

Assessoria de Comunicação do CBH do Rio Pará:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
Texto: Henrique Ribeiro
Fotos: Israel Almeida

Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pará

Compartilhe