No leito do Rio Itapecerica, um dos mais importantes afluentes do Rio Pará, uma planta aquática bastante conhecida pelos moradores pode estar deixando de ser apenas um símbolo de desequilíbrio ambiental para se tornar matéria-prima de uma pesquisa científica inovadora. O aguapé, frequentemente observado formando grandes manchas verdes na superfície do rio no trecho que corta Divinópolis, maior cidade da bacia do Rio Pará, está sendo estudado por pesquisadores da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) como fonte para a produção de nanopartículas de prata com potencial uso na área da saúde.

O projeto é coordenado pelo biólogo Adriano Guimarães Parreira, mestre e doutor em microbiologia, pós-doutor em biologia celular e conselheiro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pará (CBH do Rio Pará). Segundo ele, a pesquisa parte de um cenário ambiental bastante conhecido na região. “O aguapé é uma planta comum em ambientes aquáticos tropicais e pode até desempenhar alguns serviços ambientais, como a absorção de nutrientes presentes na água. O problema ocorre quando há excesso desses nutrientes, principalmente nitrogênio e fósforo, geralmente provenientes de esgoto doméstico ou do carreamento de fertilizantes agrícolas”, explica Parreira.
Nessas condições, a planta encontra ambiente ideal para se multiplicar rapidamente, formando densos “tapetes” na superfície da água. Esse crescimento excessivo pode bloquear a entrada de luz solar na coluna d’água e reduzir os níveis de oxigênio dissolvido, comprometendo a vida aquática. “Em alguns períodos do ano, esse fenômeno é observado em trechos do Rio Itapecerica. A redução de oxigênio pode levar à mortandade de peixes e à diminuição da biodiversidade local”, afirma o pesquisador.
Do rio ao laboratório
Diante desse cenário, a equipe da UEMG decidiu investigar uma forma inovadora de aproveitar o aguapé: transformá-lo em insumo biotecnológico. A pesquisa busca produzir nanopartículas de prata a partir da planta por meio de um processo conhecido como síntese verde, que utiliza extratos vegetais em substituição a reagentes químicos mais agressivos.
O estudo foi desenvolvido no âmbito do Edital Bolsa Produtividade da UEMG e contou também com apoio do Programa de Apoio à Pesquisa da universidade (PAPq). Para realizar os experimentos, foram coletados exemplares de aguapé diretamente no Rio Itapecerica. A partir de folhas e raízes da planta, os pesquisadores produziram extratos aquosos utilizados no processo de síntese das nanopartículas. Os primeiros indícios de formação das nanopartículas surgiram ainda no laboratório, quando os pesquisadores observaram a mudança de cor na mistura reacional — um sinal característico desse tipo de síntese.

Processo de coleta e processamento dos aguapés, em laboratório, é passo fundamental da pesquisa
A confirmação veio por meio de análises mais aprofundadas realizadas no Centro de Microscopia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). As imagens revelaram partículas predominantemente esféricas e permitiram determinar seu tamanho. “Os resultados indicaram uma eficiência significativa na produção das nanopartículas, especialmente quando utilizamos extratos obtidos das folhas do aguapé”, explica o pesquisador.

Imagens de microscópios trazem resultados animadores
Potencial contra microrganismos
Após a obtenção das nanopartículas, a equipe realizou testes preliminares para avaliar o efeito antimicrobiano do material. As análises foram conduzidas com bactérias de referência utilizadas em pesquisas científicas. Os resultados mostraram capacidade de inibição do crescimento de algumas cepas bacterianas. “Esse é um resultado bastante promissor, pois indica que as nanopartículas produzidas podem ter aplicações futuras na área biomédica e biotecnológica”, afirma Parreira.
Adriano destaca que um dos aspectos mais relevantes do estudo é justamente transformar um elemento associado a problemas ambientais em recurso científico. “Estamos falando de uma planta que muitas vezes é vista apenas como um incômodo nos rios. Demonstrar que ela pode gerar produtos com valor agregado é uma forma interessante de olhar para o problema sob outra perspectiva”, diz.
A pesquisa, inédita na região, ainda está em andamento. Atualmente, os cientistas realizam testes de toxicidade, etapa essencial para verificar a segurança das nanopartículas produzidas. Nos próximos passos, a equipe pretende ampliar os estudos sobre o potencial antimicrobiano do material, incluindo testes contra outros microrganismos, como algumas espécies de fungos. “A ciência tem um papel importante em propor soluções criativas para desafios ambientais. Neste caso, estamos explorando uma possibilidade que une conservação, inovação e produção de conhecimento”, conclui o professor responsável pela pesquisa.
Assessoria de Comunicação do CBH do Rio Pará:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
*Texto: Henrique Ribeiro
*Fotos: Jotha Lee; Pedro Vilela; UEMG – Divulgação
