Depois de anos participando de encontros nacionais para conhecer experiências desenvolvidas por outros colegiados, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pará (CBH do Rio Pará) chega a uma nova etapa de sua trajetória. Em dezembro, a entidade estará entre os participantes do 27º Encontro Nacional de Comitês de Bacias Hidrográficas (Encob), mas desta vez também como protagonista, levando projetos e experiências desenvolvidos dentro da própria bacia para compartilhar com representantes de outras regiões do país.
O Encob é considerado o principal espaço nacional de diálogo, articulação e construção coletiva sobre a gestão das águas. O encontro reúne representantes de Comitês de Bacias, poder público, instituições de ensino, setor produtivo, sociedade civil e especialistas para discutir desafios, apresentar iniciativas e buscar soluções para a gestão dos recursos hídricos. Em 2026, a 27ª edição será realizada em Fortaleza (CE), entre os dias 7 e 12 de dezembro.
É nesse espaço que o CBH do Rio Pará pretende apresentar pelo menos dois projetos: a ‘Expedição Rio Pará Vivo: mobilização social, educação ambiental e governança participativa como estratégia de fortalecimento da gestão dos recursos hídricos’ e o ‘Programa de Saneamento Rural da Bacia do Rio Pará’.
Realizada entre os dias 11 e 16 de maio deste ano, a Expedição Rio Pará Vivo percorreu trechos navegáveis do rio, desde a região da nascente, em Resende Costa, até a foz, em Pompéu. A jornada passou por municípios como Passa Tempo, Carmo do Cajuru, Divinópolis, Pitangui, Conceição do Pará e Martinho Campos, combinando navegação, educação ambiental, mobilização social, cultura e diálogo com comunidades, escolas, autoridades e usuários de recursos hídricos.
Mais do que uma expedição pelo rio, a iniciativa foi concebida como uma estratégia de aproximação entre o Comitê e a população da bacia. Em cada parada, foram realizadas atividades públicas e educativas, criando espaços para discutir a realidade do Rio Pará e estimular o sentimento de pertencimento em relação à bacia.
Relembre como foi a Expedição Rio Pará Vivo 2026:
O segundo projeto que será apresentado no Encob materializa outra frente de atuação do Comitê, que é o enfrentamento dos problemas de saneamento nas áreas rurais.
Saneamento rural chega a seis municípios
O Programa de Saneamento Rural foi criado pelo CBH do Rio Pará para levar soluções individuais de tratamento de efluentes domésticos a propriedades rurais que não contam com sistemas adequados de esgotamento sanitário. O objetivo é reduzir o lançamento inadequado de efluentes no solo e nos cursos d’água, contribuindo simultaneamente para a saúde das comunidades e para a proteção dos recursos hídricos.
A seleção das localidades ocorreu a partir de manifestações de interesse dos municípios e de uma análise técnica que considerou, entre outros critérios, a situação das comunidades e a incidência de doenças relacionadas à contaminação da água por esgoto doméstico. Depois da seleção, equipes especializadas realizaram visitas às propriedades para desenvolver projetos individualizados, considerando as características de cada imóvel.
As ações alcançam as diferentes regiões da bacia. No Alto Rio Pará, estão contempladas as comunidades de Cajuru e Jacarandira, em Resende Costa, e Custódios, em Cláudio. No Médio Pará, o programa chega a Branquinhos, em Divinópolis, e às comunidades de Bom Jesus de Angicos, Jacarandá e Olhos d’Água de Angicos, em Carmo do Cajuru. No Baixo Rio Pará, as intervenções contemplam o assentamento Antônio Veloso, em Pompéu, e a Aldeia Kaxixó, em Martinho Campos.
Os números mostram a dimensão da iniciativa. Os levantamentos técnicos apontaram a previsão de intervenções em 351 propriedades, distribuídas entre os municípios contemplados: 47 em Cláudio, 108 em Resende Costa, 85 em Carmo do Cajuru, 72 em Divinópolis, oito em Pompéu e 31 em Martinho Campos.
As primeiras obras começaram em março, no assentamento Antônio Veloso, em Pompéu, onde oito famílias receberam sistemas individuais de tratamento de esgoto. Na Aldeia Kaxixó, em Martinho Campos, estão previstos 28 sistemas de tratamento para 31 residências do território indígena.
Em Resende Costa, as ações também avançaram. Na comunidade de Jacarandira, 48 residências serão contempladas, enquanto no povoado de Cajuru outras 53 terão sistemas individuais implantados. As soluções incluem tecnologias como tanques de evapotranspiração, círculos de bananeiras, biodigestores, sumidouros e módulos sanitários, escolhidas de acordo com as características técnicas e topográficas de cada propriedade.
O investimento também cresceu ao longo da estruturação do programa. A primeira etapa havia sido estimada em aproximadamente R$ 2 milhões, mas, considerando o conjunto das intervenções atualmente contratadas e em execução, os investimentos previstos ultrapassam R$ 7 milhões. Os recursos são provenientes da cobrança pelo uso dos recursos hídricos na bacia.
Além das obras, o programa prevê mobilização das comunidades, seminários, visitas domiciliares, orientação técnica e capacitação dos moradores para a operação e manutenção dos sistemas. A proposta, portanto, não se limita à instalação de equipamentos: busca criar condições para que as próprias comunidades compreendam, acompanhem e deem continuidade às soluções implantadas.
Saiba mais sobre o Programa de Saneamento Rural da Bacia do Rio Pará:
De aprendiz a referência
É justamente a combinação dessas experiências que dá um significado especial à participação do CBH do Rio Pará no Encob. Para o presidente do Comitê, José Hermano Franco, o momento representa uma mudança importante na trajetória da instituição.
“Há cerca de oito anos, quando começou o processo de estruturação do Comitê, a realidade era muito diferente. Não havia um conjunto consolidado de projetos e experiências próprias para apresentar”, diz. Agora, segundo Hermano, o cenário mudou. “O Comitê passou a acumular iniciativas concretas, resultados e também aprendizados sobre os desafios encontrados no caminho”.
O presidente reconhece que ainda há muito a avançar e que o Comitê não conseguiu solucionar todos os problemas da bacia. Mas, para ele, ter experiências concretas para compartilhar já demonstra um salto de maturidade institucional. “Não conseguimos tudo, está longe ainda, mas já temos como mostrar experiências, inclusive para compartilhar problemas. As soluções e o que a gente fez mostram que a gente subiu muito de nível”, destaca.
A mudança de posição é percebida também pela própria experiência de Hermano em encontros anteriores. Durante anos, ele participou de apresentações de outros Comitês e se perguntava como determinadas iniciativas poderiam ser adaptadas à realidade do Rio Pará. “Eu já sentei muito nessas apresentações e ficava me perguntando como é que eu fazia aquilo, se tinha jeito, se cabia no Rio Pará ou não. Agora, provavelmente, nós vamos estar lá apresentando e alguém vai estar perguntando: como é que você fez?”, compara.
É essa inversão de papéis que simboliza o atual momento do CBH do Rio Pará. O Comitê continua aprendendo com outras bacias, mas passa também a compartilhar aquilo que construiu, inclusive os erros, as dificuldades e os caminhos encontrados para enfrentá-los.
A experiência também evidencia a importância do trabalho integrado entre o Comitê e a Agência Peixe Vivo, responsável pelo apoio técnico e operacional à execução de projetos e ações. Para Hermano, a atuação conjunta é fundamental para que as iniciativas saiam do planejamento e se transformem em ações concretas no território. “Não existe o Comitê do Rio Pará e a Agência Peixe Vivo. É tudo uma coisa só. A gente trabalha junto pela mesma coisa. Isso muda a perspectiva toda, vira uma grande equipe”, afirma.
Em Fortaleza, o CBH do Rio Pará terá, portanto, mais do que projetos para apresentar. Levará ao maior encontro nacional dos Comitês de Bacias uma parte da própria trajetória, apresentando a história de uma instituição que começou sua estruturação há alguns anos, passou por um processo de aprendizado e agora começa a produzir experiências capazes de contribuir também com outras bacias hidrográficas.
O Encob se transforma, assim, em um marco de amadurecimento. O CBH do Rio Pará continua aprendendo com quem já percorreu caminhos semelhantes, mas começa também a ocupar o lugar de quem tem caminhos próprios para mostrar, com experiências que podem ajudar outros Comitês a encontrar suas próprias soluções.
Transparência institucional
Esta publicação decorre do dever de transparência da administração pública e apresenta, de forma objetiva, informações sobre atividade ordinária da rotina institucional do CBH do Rio Pará, em conformidade com as orientações vigentes para o período eleitoral.
Assessoria de Comunicação do CBH do Rio Pará:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
*Texto: Henrique Ribeiro
*Foto: Leo Boi
