A Expedição Rio Pará Vivo 2026 chegou, nesta sexta-feira (15), à Reserva Indígena Kaxixó, na comunidade Capão do Zezinho, em Martinho Campos, transformando o quinto dia da mobilização em um encontro marcado pela valorização cultural, pela defesa do território e pela reflexão sobre a relação histórica entre o povo Kaxixó e o Rio Pará.
Promovida pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pará (CBH do Rio Pará), a expedição percorre o rio da nascente à foz em caiaques, conectando municípios, comunidades e diferentes segmentos da sociedade em torno da preservação ambiental e da conscientização sobre a importância da água para a vida, a cultura e o desenvolvimento regional.
Na Aldeia Kaxixó, a programação reuniu lideranças indígenas, estudantes, professores, moradores, representantes do Comitê, visitantes e expedicionários em um momento de integração cultural, memória e debate sobre os desafios enfrentados pelo território indígena e pelo próprio Rio Pará.
Rio Pará como território de vida, cultura e ancestralidade
Mais do que um recurso hídrico, o Rio Pará ocupa um lugar central na identidade e na memória do povo Kaxixó. É no rio que se conectam práticas culturais, formas de subsistência, rituais, convivência comunitária e saberes transmitidos entre gerações.
Durante a programação, apresentações culturais, rituais tradicionais e atividades desenvolvidas por alunos da Escola Estadual Indígena Caxixó Taoca Sérgia evidenciaram essa relação histórica da comunidade com o território e com as águas do rio.
A professora e liderança indígena Liderjane Kaxixó destacou que a passagem da expedição fortalece a esperança de recuperação ambiental do Rio Pará e chama atenção para os impactos enfrentados pela comunidade. “Essa mobilização é muito importante porque traz visibilidade e esperança de que o Rio Pará ainda possa ser recuperado. Hoje, o rio pede socorro. A baixa vazão, causada pela captação de água e pelo uso intenso para irrigação, tem comprometido seriamente sua sobrevivência”, afirmou.
Segundo ela, os impactos ambientais afetam diretamente o modo de vida tradicional da comunidade. “Essa redução no volume de água afeta diretamente o ciclo natural dos peixes, porque a água já não chega às lagoas onde acontece a desova e o desenvolvimento dos alevinos. Com isso, a quantidade de peixes diminui cada vez mais, e vemos uma verdadeira catástrofe ambiental se aproximando”, alertou.
Liderjane também relatou mudanças profundas na relação cotidiana da comunidade com o rio. “Antes, o rio era um espaço de convivência, lazer e cultura. Hoje, com o aumento do movimento de embarcações motorizadas e a baixa vazão, o ambiente se tornou perigoso, principalmente para as crianças. Tudo isso gera uma tristeza muito grande, porque o enfraquecimento do rio também representa o enfraquecimento da própria comunidade que depende dele e sempre viveu ao seu redor.”
Expedição amplia visibilidade da cultura Kaxixó
Ao longo do dia, os participantes também conheceram o Memorial Cacique Djalma, espaço dedicado à preservação da memória do povo Kaxixó, além de atividades de convivência com comidas típicas e artesanato local.
A professora Lorena Kaxixó, da Escola Estadual Indígena Caxixó Taoca Sérgia, destacou a importância da expedição para aproximar visitantes da cultura indígena e fortalecer o sentimento de pertencimento das novas gerações. “Essa passagem é muito importante para dar visibilidade ao Rio Pará e também para atrair pessoas interessadas em conhecer nossa cultura e nossa comunidade. Além disso, é uma oportunidade para que as crianças compreendam a importância do rio, que é um lugar muito especial para todos nós”, afirmou.
Ela também chamou atenção para os impactos da poluição e das práticas predatórias sobre a cultura tradicional. “Temos uma grande preocupação com a poluição e com práticas predatórias que vêm afetando o rio e, consequentemente, a nossa cultura. Aos poucos, isso acaba afastando as pessoas do convívio com o rio e enfraquecendo tradições, encontros e rituais que fazem parte da nossa identidade.”
A presença da expedição na aldeia também reforçou pautas históricas do povo Kaxixó, como a luta pela demarcação definitiva do território tradicional, o enfrentamento aos impactos ambientais provocados pelo avanço de atividades econômicas sobre a região e a busca por reconhecimento e autonomia da comunidade.
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Comitê destaca importância da mobilização contínua
Presidente do CBH do Rio Pará, José Hermano Franco destacou que o contato direto com comunidades ribeirinhas e povos tradicionais é parte essencial da proposta da expedição. “Essa expedição e o contato com as comunidades ribeirinhas, com as cidades e com toda a população são muito importantes porque ajudam a amadurecer o entendimento das pessoas sobre o rio e sobre a necessidade de preservá-lo”, afirmou.
Segundo ele, a conscientização ambiental é um processo construído ao longo do tempo. “Essa mudança não acontece de um dia para o outro, nem com uma única expedição ou apenas uma conversa. É um processo contínuo, semelhante à educação: o aprendizado acontece aos poucos, ao longo do tempo.”
José Hermano ressaltou ainda que o papel do Comitê é manter o debate ambiental ativo e ampliar a participação social na defesa do Rio Pará. “A preservação do rio exige maturidade coletiva e uma verdadeira mudança cultural, algo que só se constrói com participação, persistência e envolvimento da sociedade.”
Navegação reúne participantes de diferentes regiões
O quinto dia da expedição também contou com a participação de novos remadores que acompanharam parte do trajeto pelo Rio Pará. Morador de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), João Batista participou da navegação e destacou o significado pessoal da experiência. “Remar nesse trecho foi uma experiência muito especial, principalmente por representar um reencontro com o rio. Há mais de 40 anos eu frequentava o Rio Pará para pescar com amigos, e agora pude voltar em um contexto de conscientização e preservação ambiental”, contou.
Segundo ele, a iniciativa reforça a importância da valorização ambiental e da aproximação das pessoas com os rios. “Sou apaixonado pela natureza, pelos rios e pelas cachoeiras, então participar de um trabalho que incentiva a valorização e a preservação ambiental tem um significado muito importante para mim.”
Saneamento rural avança na Reserva Kaxixó
Durante a programação, também foi destacado o início do Programa de Saneamento Rural na Reserva Indígena Kaxixó, iniciativa do CBH do Rio Pará que beneficiará, nesta primeira etapa, 31 residências com sistemas individuais de tratamento de esgoto.
Conselheiro do CBH do Rio Pará e representante do Sindicato dos Produtores Rurais de Martinho Campos, José Dirino Arruda ressaltou a importância do trabalho desenvolvido pelo Comitê ao longo dos últimos anos. “Martinho Campos é uma cidade essencialmente agrícola, onde o Rio Pará tem enorme importância. Existe muita irrigação e captação de água, por isso precisamos zelar pelo rio e também deixar esse cuidado como legado para as futuras gerações”, afirmou.
Ele também destacou a importância dos investimentos realizados pelo Comitê na própria bacia hidrográfica. “O Comitê vem realizando um belo trabalho e cumprindo seu papel: recebe os recursos arrecadados pelo uso da água e reinveste na própria bacia.”
Expedição segue para encerramento em Pompéu
A Expedição Rio Pará Vivo 2026 será encerrada neste sábado (16), em Pompéu, após percorrer o Rio Pará da nascente à foz ao longo de seis dias de navegação, encontros comunitários, ações educativas e mobilização ambiental.
Ao longo do percurso, a iniciativa evidenciou diferentes realidades da bacia hidrográfica: desde o assoreamento e os impactos do saneamento precário até o potencial turístico, esportivo, cultural e comunitário do rio — reforçando o Rio Pará como eixo estruturante da vida, da produção, da cultura e da identidade regional.
Assessoria de Comunicação do CBH do Rio Pará:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
*Texto: Luiz Ribeiro
*Fotos: Luiz Ribeiro; Rodrigo de Angelis; Paulo Vilela; Leo Boi; Fernando Piancastelli
