A Expedição Rio Pará Vivo 2026 chegou a Divinópolis, nesta quarta-feira (13), colocando em evidência um dos maiores desafios ambientais da bacia hidrográfica: o tratamento de esgoto sanitário. Promovida pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pará (CBH do Rio Pará), a iniciativa percorre o rio da nascente à foz em caiaques, conectando municípios, comunidades e instituições em torno da preservação das águas.
No terceiro dia da jornada, os expedicionários deixaram temporariamente o leito principal do Rio Pará para navegar pelo Rio Itapecerica, um dos principais afluentes da bacia e curso d’água que atravessa a maior cidade da região hidrográfica. O trecho revelou um cenário de contrastes: ao mesmo tempo em que os canoístas passaram por paisagens de grande beleza cênica, como a Cachoeira do Caixão, encontraram também sinais evidentes da degradação ambiental provocada pela poluição e pela baixa cobertura de saneamento básico.
Navegação evidencia impactos ambientais
A entrada da expedição no Rio Itapecerica ocorreu nas proximidades da Usina do Gafanhoto, região conhecida pelo extenso tapete de aguapés que cobre parte da superfície da água. Embora visualmente marcante, a proliferação excessiva dessas plantas aquáticas está diretamente associada à alta concentração de matéria orgânica nos cursos d’água, fenômeno frequentemente relacionado ao lançamento de esgoto sem tratamento.
Durante a navegação, os expedicionários utilizaram equipamentos de proteção individual (EPIs), medida necessária devido às condições sanitárias do rio. A imagem dos canoístas equipados chamou atenção de moradores e participantes do evento realizado na Praça Candidés, no centro da cidade.
Presidente do CBH do Rio Pará, José Hermano Franco destacou que a escolha pelo Itapecerica teve justamente o objetivo de evidenciar um problema histórico da bacia. “Hoje entramos nesse afluente que corta a maior e mais desenvolvida cidade da bacia do Rio Pará, que é Divinópolis, e que, infelizmente, ainda não conta com tratamento de esgoto nem aterro sanitário adequado”, afirmou.
José Hermano também relatou que a equipe encontrou indícios de contaminação associados ao antigo lixão do município. “Percebemos o chorume da área do lixão escorrendo sobre uma nascente que abastece o Rio Itapecerica. Vimos um rio bonito, cheio de água, mas que não pode ser utilizado pela população por causa da contaminação.”
Segundo ele, a proposta da expedição é transformar a experiência prática no rio em instrumento de mobilização social e conscientização ambiental. “Tivemos que navegar usando EPIs, porque não era seguro ter contato com a água. Então, viemos aqui para chamar atenção para esse problema e mostrar essa realidade para as pessoas. Isso não é importante apenas para o Rio Pará, mas para a própria cidade e para a qualidade de vida da população de Divinópolis.”
Qualidade da água preocupa
Um dos momentos mais simbólicos da programação em Divinópolis foi a análise da qualidade da água do Rio Itapecerica, realizada pelo conselheiro do CBH do Rio Pará e professor da UEMG (Universidade Estadual de Minas Gerais), Adriano Parreira. Os resultados confirmaram o cenário já percebido visualmente ao longo da navegação: a péssima qualidade da água no trecho urbano do rio.
A atividade integrou a programação pública realizada na Praça Candidés, que reuniu estudantes, representantes de instituições, moradores e autoridades municipais em torno de debates sobre saneamento, recuperação ambiental e preservação dos recursos hídricos.
Saneamento rural avança em Branquinhos
Apesar do cenário de preocupação, o dia também foi marcado por uma agenda positiva para o município. Durante o evento, foi assinado o Acordo de Cooperação Técnica do Programa de Saneamento Rural entre o CBH do Rio Pará e a Prefeitura de Divinópolis. A iniciativa beneficiará a comunidade rural de Branquinhos, com a implantação de 44 soluções individuais de esgotamento sanitário, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida da população e para a redução da contaminação ambiental na bacia.
Secretário do CBH do Rio Pará, José Augusto Bueno ressaltou que ações locais de saneamento possuem impacto direto na recuperação dos rios. “Um dos principais problemas do Rio Itapecerica, aqui em Divinópolis, é a falta de tratamento do esgoto sanitário. É indispensável que esse tratamento aconteça de fato. Sem essa medida, o rio não consegue melhorar.”
Ele destacou, porém, que iniciativas descentralizadas também representam avanços importantes. “O Comitê de Bacia não consegue resolver tudo, mas consegue dar passos importantes. Um deles é justamente o saneamento rural na comunidade de Branquinhos, onde 44 famílias serão beneficiadas.”
José Augusto também enfatizou que as ações realizadas durante a expedição fazem parte de um esforço mais amplo de recuperação ambiental na bacia. “Essas ações fazem diferença porque evitam que efluentes sanitários sejam descartados de forma inadequada e garantem uma destinação correta.”
A secretária municipal de Agronegócios de Divinópolis, Cláudia Santana, destacou a importância da parceria entre município e Comitê. “Essa parceria vem ao encontro da vontade da administração, e a gente fica muito grato por o município, especialmente a comunidade de Branquinhos, ter sido contemplado pelo CBH Pará.”
Segundo ela, a expectativa é ampliar as ações conjuntas nos próximos anos. “Esperamos que venham novas parcerias no futuro, para que a gente continue trabalhando dessa forma: levando dignidade, saneamento básico, melhorias e qualidade de vida para toda a população rural.”
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Comunidade denuncia impactos do lixão
A programação também abriu espaço para manifestações de moradores de áreas impactadas por problemas ambientais históricos de Divinópolis. Estudante e liderança comunitária da região do Córrego da Divisa, Letícia Arruda participou das atividades e chamou atenção para os impactos associados ao antigo lixão da cidade. “Desde 2002, abrimos a campanha ‘Fora Lixão’, porque a nossa região foi impactada por esse lixão. Ao longo do tempo, fomos descobrindo várias irregularidades e, desde então, temos protocolado denúncias e pedido apoio das autoridades para desativar e recuperar a área.”
Segundo ela, perícias recentes identificaram contaminação em nascentes da região. “Recentemente, após uma perícia, foi constatado que existem duas nascentes do Córrego da Divisa, afluente do Rio Pará, afetadas pelo chorume do lixão de Divinópolis.”
Mobilização e consciência ambiental
Moradores e participantes do evento destacaram a importância da expedição como ferramenta de conscientização ambiental e aproximação da população com os rios da região.
O aposentado Geraldo de Oliveira acompanhou a programação em Divinópolis e ressaltou o papel educativo da iniciativa. “Participar de eventos ambientais é sempre muito importante. Primeiro porque, cada vez que você participa, aprende alguma coisa nova.”
Ele também chamou atenção para a necessidade de preservar não apenas os rios, mas também as nascentes que os abastecem. “Fala-se muito sobre cuidar do Rio Itapecerica, mas muitas vezes esquecem das nascentes que abastecem o rio. Foi aí que a população de Divinópolis começou a olhar mais para as nascentes, e hoje já temos várias delas revitalizadas.”
Expedição segue rumo ao Baixo Rio Pará
A Expedição Rio Pará Vivo 2026 segue até o dia 16 de maio, passando ainda pelos municípios de Pitangui/Conceição do Pará, Martinho Campos e Pompéu.
Ao longo do percurso, o CBH do Rio Pará promove encontros com comunidades, escolas, usuários de recursos hídricos, representantes do poder público e organizações locais, reforçando o Rio Pará como eixo estruturante da vida, da produção, da cultura e da identidade regional.
Assessoria de Comunicação do CBH do Rio Pará:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
*Texto: Luiz Ribeiro
*Foto: Leo Boi; Fernando Piancastelli; Pedro Vilela; Rodrigo de Angelis
