No povoado de Antônio Veloso, em Pompéu, região do Baixo Rio Pará, o clima é desafiador. As fazendas, onde hoje vivem menos de 100 famílias, são rodeadas por plantações, sobretudo de grãos e eucalipto. Chove pouco por lá ao longo do ano e, com a alta demanda de água para irrigação das lavouras, o abastecimento dos moradores se tornou um desafio.
Maria Eliene Caetano vive na região há cerca de dez anos e é presidente da Associação de Moradores. Sempre atenta ao clima, diz que o dia a dia no povoado mudou bastante desde que ela se mudou pra lá. “Na minha propriedade eu tenho várias cisternas que já secaram, tem dois açudes aqui do lado que também estão secos, o córrego Samaria está com um volume muito baixo de água. As nascentes que existiam aqui acabaram. Com o crescimento da monocultura de cana e eucalipto, a situação piorou demais. Hoje, a gente depende dos caminhões-pipa que a prefeitura disponibiliza. Sem isso seria impossível continuar vivendo aqui”, explica a produtora rural Maria Eliene Caetano.
O povoado de Antônio Veloso é uma das localidades selecionadas pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pará (CBH do Rio Pará) para receber obras do Programa de Conservação Ambiental e Produção de Água. O Comitê vai financiar a execução de intervenções para melhorar a disponibilidade hídrica da região, garantindo fornecimento de água em qualidade e quantidade para as próximas gerações. Ao todo, serão investidos quase R$ 4 milhões na região.
Garantir água suficiente para o consumo humano é um desafio não apenas em Pompéu. Com o crescimento da população do planeta, vários países enfrentam esse problema e buscam soluções. Este é um dos assuntos que vão ser debatidos na COP 30, a 30ª Conferência da ONU sobre mudanças climáticas. O evento, que acontece este mês em Belém, no Pará, vai reunir representantes de cerca de 150 países para discutir temas como redução da emissão de gases do efeito estufa, adaptação às mudanças climáticas, além da preservação de florestas e biodiversidades.
Larissa dos Reis Maciel, diretora de meio ambiente da prefeitura de Pompéu e secretária-adjunta do CBH do Rio Pará, acredita que as discussões da COP 30 tratam de assuntos globais, mas com impactos nas realidades locais, incluindo a de Pompéu. “A escassez hídrica é um dos grandes desafios que a gente enfrenta aqui. Estamos em uma região de clima muito seco, com estiagens frequentes, que impactam diretamente até mesmo nos usos múltiplos de água. As discussões propostas na COP 30 são extremamente relevantes porque trazem pautas globais, mas com reflexos locais. No nosso contexto, como parte da bacia do Rio Pará, é importante pensarmos nisso, fortalecendo políticas públicas voltadas para conservação de nascentes, manejo sustentável do solo, recuperação de áreas degradadas e uso racional da água”, afirma.

Programa de Conservação e Produção de Água do Comitê visa à melhoria da quantidade e qualidade das águas na bacia, reduzindo o risco de grandes situações de escassez hídrica
Compromisso com o futuro
A COP 30 acontece entre os dias 10 e 21 de novembro. A ONU espera que representantes de cerca de 150 nações participem das discussões, que tem como objetivo construir alianças globais e compromissos envolvendo os países, sociedade civil e setor privado, com ações efetivas para frear a crise climática mundial.
Para Beatriz Alves Ferreira, vice-presidente do CBH do Rio Pará, a COP 30 representa um marco estratégico para a agenda dos recursos hídricos, sobretudo ao reconhecer a água como elemento central na adaptação climática e na sustentabilidade.
Nesse sentido, a gestão integrada dos recursos hídricos, reforça que o enfrentamento das mudanças climáticas exige articulação intersetorial e fortalecimento das instâncias locais de gestão, como os Comitês de Bacias Hidrográficas. “Nesse contexto, o CBH do Rio Pará assume papel essencial como espaço democrático de planejamento e tomada de decisão, articulando estratégias entre municípios, sociedade civil, usuários e órgãos públicos. As ações voltadas à recuperação de nascentes, ao monitoramento da qualidade da água e à gestão de usos múltiplos da água encontram-se alinhadas com os objetivos da COP30, especialmente na promoção de resiliência hídrica e transição para modelos sustentáveis de desenvolvimento regional”, complementa a vice-presidente do CBH Rio Pará.

Beatriz destaca o alinhamento do Comitê às pautas da COP30
Espera-se que a COP 30 marque o início de uma nova fase no enfrentamento às mudanças climáticas, com foco no aceleramento à transição energética e no aumento do financiamento para países em desenvolvimento, fortalecendo a cooperação internacional. A expectativa é que diversos acordos e compromissos sejam firmados ao longo do evento, criando formas de reduzir as emissões de gases do efeito estufa, estimulando inovações tecnológicas e também garantindo a preservação dos recursos hídricos do planeta. Decisões globais, mas que vão ser percebidas por populações de vários cantos do planeta, como em Antônio Veloso, na bacia do Rio Pará.
A COP 30 vai ser um espaço de construção de compromissos entre países, mas também de troca de experiências sobre soluções sustentáveis para equilibrar o uso dos recursos hídricos e a conservação da biodiversidade. Buscando maneiras de enfrentar os grandes problemas globais que refletem nos desafios locais. “Eventos como a COP inspiram políticas e práticas que vão fortalecer a governança das bacias hidrográficas, promovendo o uso sustentável dos recursos. Uma conexão entre ciência, gestão pública e participação da sociedade que, na minha visão, é o caminho para transformar metas globais em resultados concretos nas escalas locais e regionais, como aqui na nossa bacia do Rio Pará”, finaliza Ludmila Brighenti, bióloga e professora da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), e conselheira do CBH do Rio Pará.
Assessoria de Comunicação do CBH do Rio Pará:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
*Texto: Henrique Ribeiro
*Foto: Leo Boi, Udner Rios, João Alves
