Muito antes de os caiaques tocarem a água, a Expedição Rio Pará Vivo 2026 começou a ser construída a partir de encontros, estudos, planejamento e mobilização.
Quando as primeiras embarcações entraram no Rio Pará, em maio de 2026, a expedição parecia finalmente começar. Mas aquela travessia havia sido iniciada muito antes.
Ao longo dos meses que antecederam a Expedição, o CBH do Rio Pará articulou, em parceria com prefeituras, secretarias municipais, escolas, universidades, associações comunitárias e lideranças locais, uma programação que transformaria cada parada em um momento de encontro entre o rio e a população.
A Expedição Rio Pará Vivo 2026 nasceu da compreensão de que conhecer um território é condição indispensável para cuidar dele. A proposta era percorrer o Rio Pará por suas águas e, ao mesmo tempo, criar uma nova forma de olhar para a bacia hidrográfica.
Cada decisão tomada ao longo desse processo foi guiada por um propósito comum. A navegação deveria funcionar simultaneamente como meio de deslocamento, instrumento de observação ambiental, ferramenta de leitura do território, plataforma de produção de conhecimento e experiência capaz de aproximar as pessoas do rio.
Essa construção envolveu dezenas de profissionais, instituições parceiras, comunidades, municípios e conselheiros do CBH do Rio Pará. O resultado foi uma expedição que extrapolou o desafio esportivo e se consolidou como um dos maiores movimentos de reconhecimento territorial já realizados na história do Comitê.
A IDEIA NASCEU NA ESTRADA
A semente da Expedição Rio Pará Vivo 2026 foi plantada três anos antes, durante a primeira grande jornada promovida pelo CBH do Rio Pará em toda a bacia. Realizada em maio de 2023, a expedição terrestre percorreu aproximadamente 2 mil quilômetros, passando por 12 municípios ao longo de duas semanas. Pela primeira vez, o Comitê conhecia o território de forma integrada, visitando comunidades, dialogando com lideranças e observando de perto os desafios e as potencialidades do Rio Pará.
A experiência inaugurou uma nova forma de atuação do Comitê. Ao aproximar conselheiros, técnicos, gestores públicos, comunidades e organizações locais, fortaleceu o sentimento de pertencimento em relação à bacia e evidenciou a importância de ouvir quem vive às margens do rio. O percurso também revelou os contrastes do território: rios preservados e comunidades fortemente conectadas às águas conviviam com trechos marcados pelo lançamento de esgoto, processos erosivos, perda de vegetação ciliar e conflitos pelo uso dos recursos hídricos.
Foi justamente dessa travessia que surgiu a ideia de navegar o Rio Pará, como lembra a vice-presidente do Comitê, Beatriz Alves. “Em vários momentos da viagem percebemos que conhecíamos o Rio Pará quase sempre pelas estradas ou pelas pontes. Foi ali que surgiu a ideia de fazer o caminho inverso: entrar no rio e enxergar a bacia a partir das águas. Todos entenderam que essa seria uma experiência completamente diferente, capaz de revelar aspectos que simplesmente não aparecem quando observamos o território de fora.”
A proposta amadureceu nos meses seguintes e deixou de ser apenas uma travessia pelo rio. Navegar passou a ser entendido como uma forma de produzir conhecimento, fortalecer a mobilização social e ampliar a compreensão sobre uma bacia hidrográfica marcada por realidades muito distintas entre a nascente e a foz. Assim começava a tomar forma uma das iniciativas mais ambiciosas já desenvolvidas pelo Comitê.

Antes de entrar no rio, foi preciso conhecer o caminho. A equipe percorreu previamente os trechos da expedição para avaliar condições de navegação, acessos e obstáculos. Beatriz Alves, vice-presidente do CBH do Rio Pará (dir.), conta como a experiência da expedição terrestre de 2023 despertou a ideia de conhecer a bacia a partir de suas águas.
CONHECER PARA NAVEGAR
Se a Expedição de 2023 mostrou que era preciso entrar no rio, o passo seguinte foi descobrir onde e como isso seria possível. Em 2024, o CBH do Rio Pará iniciou o Projeto de Mapeamento da Navegabilidade, que reuniu levantamentos técnicos e oficinas com comunidades ribeirinhas para produzir um retrato detalhado do principal curso d’água da bacia.
Ao longo dos trabalhos, foram utilizados drones, equipamentos de georreferenciamento, levantamentos batimétricos e outras tecnologias para registrar características da calha, obstáculos naturais e artificiais, afluentes e diferentes condições de navegabilidade. Os dados deram origem a uma plataforma digital interativa, que reúne mapas e informações técnicas para apoiar a gestão dos recursos hídricos e ampliar o conhecimento sobre o Rio Pará.
Para o coordenador técnico da Agência Peixe Vivo, João Paulo Coimbra, o projeto representou um marco para a bacia. “O mapeamento produziu um conhecimento que simplesmente não existia sobre o Rio Pará. Hoje temos informações técnicas capazes de apoiar desde a gestão dos recursos hídricos até iniciativas ligadas ao turismo, à educação ambiental e ao planejamento territorial.”
Além de produzir uma base inédita de informações, o levantamento confirmou que a navegação planejada desde 2023 era tecnicamente viável. A partir dali, a Expedição Rio Pará Vivo 2026 deixava de ser uma ideia para entrar definitivamente na fase de preparação.

A plataforma digital (esq.) reúne mapas e dados produzidos pelo Projeto de Mapeamento da Navegabilidade do Rio Pará. João Paulo Coimbra, coordenador técnico da Agência Peixe Vivo (dir.), destaca o papel do mapeamento da navegabilidade na produção de novos conhecimentos sobre o Rio Pará.
MUITO ALÉM DAS CANOAS
Com a navegação confirmada, começou uma etapa que permaneceu praticamente invisível para quem acompanhou apenas os seis dias da Expedição.
Durante semanas, uma equipe multidisciplinar estruturou cada detalhe da operação, envolvendo logística, geoprocessamento, segurança, comunicação, mobilização social e articulação institucional. Antes mesmo de os expedicionários entrarem no rio, outro grupo já percorria o território validando acessos, identificando pontos de embarque e desembarque, avaliando áreas de risco e definindo alternativas para diferentes cenários.
Algumas semanas antes da largada, uma pré-expedição revisitou os trechos previstos para confirmar as condições de navegabilidade, reconhecer obstáculos e ajustar o planejamento. As informações coletadas deram origem aos mapas que orientaram toda a travessia, apoiando a navegação, a segurança das equipes e o registro técnico da Expedição.
A operação também exigiu embarcações e equipamentos compatíveis com as diferentes características do Rio Pará. Caiaques, canoas canadenses, embarcações infláveis e uma plataforma catamarã integraram a estrutura de apoio, complementada por equipamentos de segurança, comunicação, resgate e atendimento a emergências.
Toda essa preparação tinha um objetivo claro: fazer da navegação uma ferramenta de leitura do território. Ao longo do percurso, a equipe observou a qualidade das águas, registrou paisagens, identificou diferentes usos do rio, dialogou com moradores e produziu informações técnicas e institucionais sobre a bacia.
Assim, a Expedição foi planejada não apenas para percorrer o Rio Pará, mas para compreendê-lo em toda a sua diversidade.

José Augusto Bueno, secretário do CBH do Rio Pará (esq.), destaca a importância da participação dos municípios e das comunidades na construção da Expedição. A travessia também aconteceu fora da água. O deslocamento das embarcações entre os diferentes pontos do percurso fez parte da complexa logística da Expedição.
UM RIO QUE ESPERAVA NAS MARGENS
Enquanto a equipe preparava a travessia, outro movimento acontecia ao longo da bacia. Muito antes da chegada das embarcações, o CBH do Rio Pará articulava, junto a prefeituras, secretarias municipais, escolas, universidades, associações comunitárias e lideranças locais, uma programação que transformaria cada parada da Expedição em um momento de encontro entre o rio e a população.
As articulações envolveram reuniões preparatórias, definição da programação, autorizações, mobilização de estudantes e organização da logística local. O resultado foi uma agenda construída coletivamente, com apresentações culturais, atividades de educação ambiental, rodas de conversa, ações com escolas, encontros com comunidades ribeirinhas, assinaturas de acordos de cooperação e solenidades que marcaram a chegada dos expedicionários em cada município.
Para o secretário do CBH do Rio Pará, José Augusto Bueno, essa mobilização foi tão importante quanto a própria navegação. “Desde o início, a compreensão foi de que a Expedição só faria sentido se fosse uma construção coletiva que incluísse os municípios. Em cada chegada era importante que, além de um momento de celebração, fosse também um espaço de diálogo. O envolvimento das prefeituras, escolas, comunidades e instituições locais possibilitou que a população se reconhecesse como parte desta ação.”
Uma ampla estratégia de comunicação também acompanhou toda a jornada. Reportagens em veículos municipais, regionais e estaduais, entrevistas, registros fotográficos, vídeos e publicações nas redes sociais ampliaram o alcance da iniciativa e permitiram que milhares de pessoas acompanhassem a Expedição praticamente em tempo real.
Ao levar a travessia para além das margens do Rio Pará, a comunicação ajudou a ampliar o alcance da iniciativa e reforçou seu principal propósito: aproximar cada vez mais pessoas do rio.
QUEM NAVEGOU O RIO PARÁ
A Expedição Rio Pará Vivo 2026 reuniu profissionais com trajetórias bastante distintas,
mas unidos pelo propósito de conhecer o rio por dentro e produzir uma nova leitura da bacia.

José Hermano Franco
Biólogo, estudante de Direito e presidente do CBH do Rio Pará, participou de toda a travessia representando o Comitê e acompanhando as atividades de mobilização junto aos municípios.

Rodrigo de Angelis
Designer, empresário e coordenador da navegação. Foi responsável pelo planejamento técnico da travessia, pela condução das equipes na água e pela definição dos procedimentos operacionais.

Fernando Piancastelli
Turismólogo e fotógrafo. Responsável por parte dos registros fotográficos que documentaram paisagens, comunidades e momentos marcantes da jornada..

Antônio Jackson Lima
Ambientalista alagoano, conselheiro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) e idealizador do Museu Ambiental Casa do Velho Chico. Levou à Expedição sua experiência em mobilização social e educação ambiental em bacias hidrográficas.

Gabriel Figueiredo
Ribeirinho sabarense, montanhista, e fabricante de canoas em fibra. Atuou na navegação e no apoio técnico às embarcações ao longo do percurso.

Adherbal Muniz
Empresário e desenvolvedor de destinos turísticos, contribuiu com sua experiência em turismo de natureza e no reconhecimento das potencialidades do Rio Pará
para atividades sustentáveis.
UMA EQUIPE MUITO MAIOR
Por trás dos seis navegadores, dezenas de profissionais participaram da Expedição nas áreas de geoprocessamento, logística, segurança, apoio operacional, comunicação, produção audiovisual, articulação institucional, mobilização social e educação ambiental. A Agência Peixe Vivo desempenhou papel fundamental em todas as etapas de planejamento, organização e execução da iniciativa, contribuindo para transformar a travessia em um dos maiores projetos já realizados pelo CBH do Rio Pará.
Assessoria de Comunicação do CBH do Rio Pará:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
Texto: Luiz Ribeiro
Fotos: Fernando Piancastelli, Pedro Vilela e João Alves
