Revista Rio Pará nº 04: Os negro cantô pra ela

06/01/2026 - 15:00

Patrimônio Cultural reconhecido pelo Iphan, Reinado de Bom Despacho ecoa a devoção mariana dos negros escravizados


Penumbra. Os primeiros raios de sol aparecem no horizonte, banhando os edifícios. São 6h, e, ao longe, se escutam batuques. O som grave dos tambores vai crescendo, parecendo acordar o sol. Da Cruz do Monte, em Bom Despacho, vão se aproximando pessoas com vestes coloridas, instrumentos de percussão e bandeiras. Pouco a pouco, as palavras vão se tornando compreensíveis, na mesma medida em que a luz solar transborda por cima dos telhados, inundando as paredes das casas. “Senhora do Rosário foi quem me trouxe aqui”, cantam.

Com calças adornadas, camisas coloridas e chapéus, os dançadores, como são chamados, aparecem. Um a um, eles tiram seus chapéus ao passarem diante da igreja. Assim que levantam os chapéus, o sol, já pleno, ilumina suas cabeças nuas, como se fosse o halo sobre a cabeça dos santos. Pandeiros, caixas e cantos anunciam a chegada dos cortes. É agosto, é tempo de louvar Nossa Senhora do Rosário em Minas Gerais. Por todo estado, populares se reúnem para manter viva a festa que nasceu nos tempos da escravidão. E, em Bom Despacho, que é um grande quilombo entre os rios Picão e Lambari, descendentes de reis e rainhas africanos batem os pés e os instrumentos de percussão em honra à Nossa Senhora do Rosário.


Riqueza de cores, sons e símbolos: Reinado em Bom Despacho revela histórias de fé, ancestralidade e resistência.


Senhora dos Homens Pretos

Originários de uma espiritualidade que não conhece o maniqueísmo do bem e do mal, os africanos escravizados no Brasil foram forçados a aderir a uma religiosidade que não lhes era própria. No entanto, encontraram ali, na mistura entre suas espiritualidades e o catolicismo, uma acolhida mútua.

Conta a história, transmitida por gerações e com várias versões, que os senhores de engenho construíram uma capela repleta de ouro dedicada à Nossa Senhora, que havia sido avistada flutuando sobre o mar. Eles a levaram para a igreja, mas Ela se recusava a permanecer ali. Carregada pelos brancos até a capela à noite, voltava para o mar na manhã seguinte. Quando os negros escravizados foram até Ela e cantaram, Nossa Senhora os seguiu. Por isso, construíram uma igreja para Ela. Essa é a versão litorânea. Na versão montanhosa de Minas Gerais, porém, ao invés do mar, Nossa Senhora estava numa gruta, no meio da floresta.

Os escravocratas, contudo, proibiam africanos e indígenas de entrar em suas igrejas. Assim, era comum que eles construíssem suas próprias igrejas – e, como no Congo a devoção à Nossa Senhora do Rosário era popular, isso também se repetiu aqui. Em Ouro Preto, por exemplo, no século XVIII, foi construída a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, devoção que se espalhou por outros lugares do país – inclusive Bom Despacho.


Em silêncio e devoção, a fé pulsa entre mãos firmes e memórias profundas.


Congo e Moçambique

Galanga, africano da região do Congo, foi sequestrado naquele continente junto com seu clã, do qual era rei. Ao fim da travessia forçada pelo Atlântico, apenas ele e seu filho haviam sobrevivido. Já nestas terras, recebeu o nome Francisco, imposto pelos portugueses. Galanga, agora apelidado de Chico, comprou a alforria de seu filho e de outros africanos que vieram com ele no navio para as terras de Vila Rica. Eles também o consideravam rei. Assim, em tempos de festividades do Rosário, Chico Rei, junto com sua rainha, precediam a corte do Congo nas procissões em louvor à Nossa Senhora.

Na história sobre a aparição de Nossa Senhora do Rosário, a corte do Congo foi na frente buscar Nossa Senhora, cantando e dançando, enquanto a guarda de Moçambique os seguia, com passo mais lento, tocando candombes (tambores) e gungas (latas cheias de grãos que ficam amarradas no tornozelo). Nossa Senhora, então, voltou pairando sobre a guarda de Moçambique, atrás da corte do Congo, que abria caminho. Essa ordem se reflete ainda hoje: os cortes (esse nome vem das cortes) do Congo, com seus reis e rainhas, seguem à frente das guardas de Moçambique, que carregam, em quatro andores, as imagens de Nossa Senhora das Mercês, São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário.


A espiritualidade do Reinado se manifesta no gesto íntimo de quem carrega a santa no peito


Moçambique

Ô Massambique, ô lá nas mata, ê!
Ô Massambique, ô lá nas mata, ô!
Nossa Senhora lá nas mata,
Numa gruta de pedra.
Mas os negro cantô pra ela:
Eu vim buscá a Senhora!


Enquanto cantava esses versos, Holdry Oliveira, do Quilombo Carrapatos da Tabatinga, tinha o olhar fixo no vazio, mas parecia que via alguém. No espaço do terreiro, várias figuras, de santos, de orixás, de parentes. Só se ouvia sua voz, mas ela não cantava sozinha. Depois, evocou a memória da avó dela, Sebastiana Geralda Ribeiro da Silva, figura muito conhecida em Bom Despacho como Tiana, que lhe ensinou essa música.

Capitã do Moçambique de São Benedito, Holdry conta ainda que Dona Tiana sofreu com o preconceito pelo fato de ser mulher e umbandista. “Quando ela veio para cá, ela dançava em outro Moçambique, que era o de Nossa Senhora do Rosário. Mas eles falavam que mulher só podia ser princesa, que é a responsável por carregar a bandeira. Aí ela falou: ‘Não, eu não sou obrigada a ficar aqui. Então, eu vou dar meu jeito’.” Dona Tiana, então, fundou sua própria guarda, e, em Nova Serrana, tornou-se Capitã de Moçambique, função proibida para mulheres em Bom Despacho.

Mas havia ainda a barreira religiosa. “Ela era uma mulher negra, uma mulher quilombola, uma mulher pobre, uma mulher espírita. Porque, sim, ela tinha essa dupla religiosidade, nós temos essa dupla religiosidade. Era um conflito muito grande”, diz Holdry. E continua: “Então, por um tempo, o Moçambique saía nas ruas, mas não tinha nenhum direito de participar das atividades que os associados da Associação dos Reinadeiros tinham. O Moçambique dela não podia entrar na igreja, levantar mastro, participar da procissão, não podia fazer basicamente nada…, mas eles não podiam impedi-la de sair na rua”, afirma com orgulho.

Direto das mãos de Lázaro Antônio Felipe, seu avô, Holdry recebeu o bastão de Capitã do Moçambique de São Benedito durante o velório da dona Tiana. Ela conta que sentiu o peso da responsabilidade, mas que abraçou a missão com a ajuda do avô. “Eu recebi o bastão, cantei para ela, ao lado do caixão, e ali eu entendi tudo: estava começando uma missão. A primeira vez que eu cheguei na porta da igreja, eu pedi força, porque espiritualmente é muito pesado”, lembra. “Porque minha avó era fora de série, né? E eu não… eu não sou minha avó. O que me dá segurança é ter meu avô aqui comigo”, encerra.


Holdry Oliveira, Capitã do Moçambique de São Benedito, e seu avô, Lázaro Antônio Felipe, mantêm viva em Bom Despacho a tradição do Reinado


Congo

“Era quase uma brincadeira. Latinhas de goiabada, de marmelada viravam pandeiro, lata de óleo virava caixa, o reco-reco nós fazíamos também… Naquela época, as crianças não podiam participar com os grandes. Então, quando acabava o Reinado, a gente fazia um corte nosso de criança”. A criança de então, que fala agora, é Vital Libério Guimarães, ou apenas Vital, como é chamado. Ele é líder de um dos cortes de Congo mais tradicionais de Bom Despacho: o corte Vital Macota, que completou, em 2025, 60 anos de fundação.

Vital Macota, antigo congadeiro falecido em 1984, decidiu lutar pela inclusão das crianças no Reinado. Seus filhos e netos eram as crianças que “brincavam” de Reinado. Como aliado, Macota tinha o Capitão Dunga, uma das personalidades bom-despachenses mais conhecidas – especialmente nas festividades do Rosário. Sozinho, Macota não conseguiu convencer o pároco de então a permitir um corte apenas de crianças. “Um dia o meu avô resolveu fazer um corte de criança, só de criança. Foi até o padre e conversou com ele – era o padre Ivo na época. Ele resistiu um pouco, mas com a interferência do Dunga, ele acabou liberando. Assim, nós fizemos, em 1965, a primeira saída oficial”, conta Vital, neto do Macota.

Os meninos de então, que faziam seus próprios instrumentos, foram crescendo, tornando-se adolescentes e adultos. Mas, mesmo após um intervalo de alguns anos devido ao falecimento do Macota, o corte de mesmo nome de seu fundador conserva, em sua corte, crianças dançadoras. “Estamos sempre nos renovando com as crianças, com a juventude. E, de certa forma, existia, antigamente, algum preconceito com o Reinado. Hoje não. Hoje dança rico, dança pobre”, celebra Vital.

Como congadeiro desde pequeno, Vital entende o encanto que as crianças têm pelo Reinado e a importância de tê-las nos cortes. “Quando você é menino e vê o Reinado chegando, você fica doido, encantado. E comigo não foi diferente. Da mesma forma, todo mundo gosta de ver as crianças no Reinado”, conclui.

Patrimônio Imaterial de Bom Despacho

“Eu não consigo me ver fora, sabe? É algo, que, para mim, vai além do aspecto religioso. Fico emocionada, porque eu sou muito grata ao meu pai por ter entrado no Reinado e levado essa cultura para minha casa.” Com os olhos marejados, a historiadora Bárbara Freitas conta que iniciou no Reinado com menos de cinco anos, levada pelo pai. Hoje Secretária de Cultura e Turismo de Bom Despacho, ela entende, por experiência e por profissão, que a história da cidade se confunde com a da festa do Rosário.

Registrado como Patrimônio Cultural Imaterial do município, o Reinado é, com certeza, mais antigo do que Bom Despacho, que foi instalado em junho de 1912. “Em 2019, quando eu entrei na secretaria, eu fiz alguns levantamentos históricos sobre a cidade. E aí, o Reinado – embora não haja comprovações de fontes históricas –, é certo, está aqui desde o século XIX.” Nesse sentido, é difícil falar de Bom Despacho sem o Reinado.


Confira todas as fotos neste link:


Por isso, hoje, a cidade já conta com mais de 30 cortes registrados na Associação de Reinadeiros. É um número impressionante. Segundo a instituição, estima-se que cerca de 2.600 pessoas dançam Reinado em Bom Despacho – o que representa cerca de 5% da população. Além de patrimônio, a festa é uma atração turística. “O Reinado é o maior atrativo turístico da cidade. O pessoal vem de outras cidades para ver, a cidade enche com a festa. Inclusive, cortes de outros locais ficam aqui e almoçam na casa de fiéis”, comemora Bárbara.

Em 2024, Minas Gerais registrou os Reinados e Congados como Patrimônio Cultural Imaterial do estado. Este ano, a União, através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), fez o mesmo. Bom Despacho já os havia reconhecido dez anos antes. Talvez porque, ao reconhecer o Reinado, Bom Despacho busca reconhecer a própria história e a de seus cidadãos – descendentes de um povo com quem Nossa Senhora do Rosário escolheu cantar e dançar para sempre.


Assessoria de Comunicação do CBH do Rio Pará:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
Texto e fotos: Leonardo Ramos

Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pará

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