Especialista explica como desmatamento, impermeabilização do solo e ocupação irregular aumentam as enchentes, os deslizamentos e o impacto das mudanças climáticas nas cidades
Nas últimas décadas, cidades do mundo inteiro cresceram em ritmo acelerado, acompanhamento o aumento populacional. Muitas vezes, deixando o planejamento urbano de lado, casas, prédios e bairros inteiros foram criados em locais onde antes só existia a natureza. Áreas de preservação permanente foram cobertas por asfalto, impermeabilizando o solo, e construções ocuparam regiões de encosta, com relevo íngreme a arriscado.
A falta de planejamento urbano no uso e ocupação do solo traz consequências sérias. Em fevereiro deste ano, a Zona da Mata Mineira enfrentou uma das maiores tragédias climáticas da história da região, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Dias seguidos de chuva forte fizeram os córregos transbordarem e áreas de encosta desmoronaram. Nas cidades de Juiz de Fora e Ubá, as mais afetadas, foram mais de 70 mortos e centenas de famílias perderam suas casas.
Especialistas afirmam que as formas de uso e ocupação do solo estão diretamente ligadas aos problemas climáticos, como enchentes e deslizamentos. Conversamos sobre esse assunto com Ludmila Brighenti, bióloga, professora da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) em Divinópolis e conselheira do CBH do Rio Pará. Para ela, a situação é delicada e exige atenção.
O desmatamento causado pela expansão urbana e agrícola aumenta a emissão de gases de efeito estufa, principalmente quando ocorre por queimadas, liberando dióxido de carbono (CO₂), metano e monóxido de carbono. Além disso, a retirada da vegetação deixa o solo mais exposto à radiação solar, aumentando sua temperatura e acelerando a decomposição da matéria orgânica, o que libera ainda mais gases para a atmosfera.A substituição da vegetação por superfícies impermeáveis, como concreto e asfalto, reduz a infiltração da água e prejudica a recarga dos lençóis freáticos. Também afeta o ciclo da água, pois a diminuição da evapotranspiração das árvores reduz a umidade do ar e pode diminuir a formação de chuvas.
Como a impermeabilização do solo nas cidades intensifica os efeitos das chuvas extremas associadas às mudanças climáticas?
A impermeabilização do solo nas cidades, causada por asfalto, concreto e outras pavimentações, reduz a infiltração da água da chuva, impedindo que ela penetre no solo. Como consequência, aumenta o escoamento superficial, fazendo com que a água se acumule nas ruas e cause enchentes e alagamentos. Sem vegetação para reduzir a velocidade da água, as enxurradas tornam-se mais fortes e destrutivas. Além disso, a menor infiltração diminui a recarga dos lençóis freáticos e mananciais, reduzindo o armazenamento natural de água subterrânea.

Qual é a relação entre ocupação irregular de encostas e o aumento de deslizamentos em cenários de eventos climáticos extremos?
A ocupação irregular de encostas geralmente envolve a retirada da vegetação natural, que ajuda a manter a estabilidade do solo por meio das raízes que fixam as partículas e reduzem a erosão. Sem essa vegetação, o solo fica mais instável e, em períodos de chuvas intensas a água infiltra ou escorre com mais força. Isso aumenta o risco de deslizamentos de terra, especialmente durante eventos de chuva muito fortes.
Em que medida a ocupação de áreas de preservação permanente (APPs) potencializa enchentes e crises hídricas?
As APPs, como margens de rios, nascentes e encostas, têm funções importantes para o equilíbrio hídrico e ambiental. A vegetação nesses locais ajuda a reduzir a força da água, estabilizar o solo e favorecer a infiltração. Quando essas áreas são ocupadas e impermeabilizadas, esse efeito protetor é perdido. A retirada da vegetação aumenta o escoamento superficial, elevando o risco de enchentes, além de favorecer processos de erosão, assoreamento e a degradação dos mananciais.
Como o crescimento urbano desordenado contribui para a formação de ilhas de calor e para o aumento da vulnerabilidade climática?
O crescimento urbano desordenado, sem planejamento adequado de áreas verdes e permeabilidade do solo, aumenta as superfícies de concreto e asfalto e reduz a vegetação, fazendo as cidades absorverem e reterem mais calor. Esses materiais acumulam energia solar durante o dia e liberam-na lentamente à noite, formando ilhas de calor mais quentes que as regiões naturais ao redor. A vegetação ajuda a amenizar esse efeito por meio da evapotranspiração, que reduz a temperatura e aumenta a umidade do ar, tornando as cidades menos vulneráveis às ondas de calor e aos impactos das mudanças climáticas.
Como políticas públicas de ordenamento do solo podem atuar como estratégia de adaptação às mudanças climáticas?
As políticas públicas de ordenamento do solo são essenciais para tornar as cidades mais resilientes às mudanças climáticas, por meio de instrumentos como plano diretor, zoneamento urbano e definição de áreas de preservação, que limitam a ocupação e a impermeabilização do solo. Elas podem manter áreas verdes, proteger margens de rios, encostas e zonas de recarga hídrica, além de incentivar soluções que favoreçam a infiltração da água. Integradas à gestão das bacias hidrográficas, essas medidas ajudam a garantir água em quantidade e qualidade, reduzir impactos de enchentes, secas e ondas de calor, e ainda melhorar a qualidade de vida da população, preservando espaços de lazer e promovendo cidades mais equilibradas.

Cenário de destruição na
Zona da Mata Mineira após chuvas intensas evidencia os impactos da ocupação desordenada e da falta de planejamento urbano.
Assessoria de Comunicação do CBH do Rio Pará:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
