Revista Rio Pará nº 04: Caminhos que se fazem com água e vozes femininas

30/01/2026 - 11:00

Uma conversa com Fernanda Matos sobre como gênero e governança se entrelaçam na gestão das águas e podem fortalecer a democracia hídrica no Brasil.

A gestão das águas no Brasil é um desafio que envolve múltiplos atores, interesses e olhares. Nos últimos anos, uma dimensão importante desse debate tem ganhado destaque: a relação entre água e gênero. Afinal, as desigualdades sociais e de gênero também se refletem no acesso à água, no saneamento e, sobretudo, nos espaços de decisão sobre esse recurso vital.

Incluir mulheres nos processos decisórios não é apenas uma questão de representatividade, mas de qualificação da governança, já que elas estão historicamente na linha de frente do cuidado com famílias, comunidades e territórios. Mais do que vítimas da crise hídrica, as mulheres são também protagonistas de soluções locais, trazendo perspectivas e práticas que fortalecem a resiliência diante de eventos extremos e mudanças climáticas.

Para falar sobre esse tema, conversamos com Fernanda Matos, pesquisadora e especialista em governança de água e gênero. Fernanda é formada em Administração, mestre em Meio Ambiente, doutoranda e professora universitária, com mais de 16 anos de experiência acadêmica. Nos últimos anos, coordenou estudos de referência, como a série Retratos de Governanças das Águas no Brasil, que revelou dados inéditos sobre a baixa presença de mulheres nos Comitês de Bacia e Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos.

Além da produção acadêmica, também se destaca por sua atuação em redes internacionais, como o Climate Reality Project, do ex-vice-presidente dos Estados Unidos e Prêmio Nobel da Paz, Al Gore.

Lançamento do segundo volume do livro ‘Mulheres das Águas’, organizado por Fernanda Matos, se deu no Encontro Nacional de CBHs, em 2022.

 

Como surgiu seu interesse por água, governança e gênero?

Na minha tese, incluí um prólogo que começa com um fragmento de poema do espanhol Antônio Machado: “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”. Essa imagem sintetiza bem o que foi — e ainda é — a minha trajetória. O caminho não estava pronto; ele foi sendo construído a partir das minhas inquietações acadêmicas, profissionais, mas também de vivências pessoais. No mestrado em Meio Ambiente percebi a centralidade da água e, nos Comitês de Bacia, me deparei com a baixa representatividade feminina. Desde 2018, não consigo mais separar os temas: água, governança e gênero se tornaram eixos inseparáveis da minha atuação.

Percebo hoje que muito do que faço é movido pela vontade de transformar as dificuldades que minha mãe enfrentou — e que, em parte, também vivi — em caminhos que não precisem ser percorridos por outras mulheres. Cada pesquisa, cada aula, cada participação em eventos é também uma tentativa de contribuir para que o futuro seja menos desigual e mais justo do que o passado que nos antecedeu. Sei que parece muito audacioso, mas como disse a ministra Marina Silva em uma mesa de debates “viver é insistir […] e o sonho é a matéria prima mais concreta” que se tem.

Afinal, o que água tem a ver com gênero?

Diferentes pesquisas, estudos e relatórios têm evidenciado que água e gênero estão profundamente interligados. As mulheres são, historicamente, responsáveis pelo cuidado da família, pelo abastecimento doméstico e pelo uso da água em tarefas cotidianas, especialmente em comunidades rurais e periféricas. A falta de água e de saneamento não é neutra. Ela afeta mais diretamente as mulheres, que historicamente assumem responsabilidades domésticas e comunitárias ligadas à água. A escassez aumenta jornadas de trabalho, riscos à saúde e sobrecarga mental. Ao mesmo tempo, são elas que criam soluções locais e estratégias de resiliência. O problema é que essa experiência raramente se traduz em voz política nos espaços de decisão. Incluir a perspectiva de gênero é qualificar políticas públicas e fortalecer a justiça socioambiental.

Em sua pesquisa Retratos de Governanças das Águas no Brasil, quais foram os principais achados sobre a participação feminina?

Constatamos que a presença das mulheres é minoritária: 31,2% nos Comitês Estaduais, 27,1% nos Comitês Federais e 32,4% nos Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos. E mais: mesmo quando estão presentes, muitas enfrentam constrangimentos, interrupções e apropriação de suas ideias. Ou seja, não é apenas uma questão de números, mas também de violência política de gênero.

Quais obstáculos ainda limitam uma participação mais igualitária nos espaços de gestão da água? Existem diferenças regionais importantes nesse cenário?

As barreiras são estruturais (desigualdade de acesso a transporte, recursos e redes de apoio), institucionais (editais técnicos e linguagem excludente), culturais (naturalização do protagonismo masculino) e subjetivas (baixa autoestima coletiva e falta de acolhimento). Muitas mulheres e jovens simplesmente não se sentem pertencentes a esses espaços, o que leva à desistência. A exclusão não decorre apenas da ausência de mulheres, jovens e populações vulneráveis, mas de um conjunto de práticas e estruturas que limitam sua voz, sua influência e sua permanência nos espaços de decisão – também sobre a água.

Complementando, existem sim diferenças regionais. As desigualdades não são homogêneas: se manifestam de forma interseccional, combinando gênero, raça, território e classe social. Em Minas, por exemplo, há tradição institucional nos Comitês, mas isso não significa equidade de gênero. Já em regiões mais distantes ou de maior vulnerabilidade socioeconômica, os obstáculos à participação são ainda mais fortes. O contexto regional influencia não apenas a viabilidade da participação, mas também a forma como os papéis sociais são interpretados e valorizados. É fundamental considerar essas especificidades para pensar políticas de inclusão efetivas.

Questões práticas, como horário e local de reuniões, influenciam essa participação? E quais medidas podem ser adotadas pelos CBHs e órgãos públicos para melhorá-las?

Totalmente. Reuniões em horários incompatíveis, locais distantes, falta de transporte e ausência de apoio ao cuidado infantil dificultam a presença das mulheres. Muitas vezes, quem consegue participar são pessoas com mais renda, autonomia e mobilidade — perfis majoritariamente masculinos, urbanos e de classes mais altas.

Para minimizar essas questões, os Comitês podem aplicar o que chamo de “teste do pescoço”: olhar a sala e ver quem está e quem não está presente. Depois, é preciso ajustar condições práticas (horários, locais, transporte, cuidado infantil) e criar estratégias de médio e longo prazo, como comunicação inclusiva, mentoria, redes de apoio e formação continuada. O mais importante: não basta garantir assento, é preciso assegurar voz e influência real.
Que mensagem você deixa para jovens mulheres que querem se envolver com a gestão das águas?

Minha mensagem é de encorajamento. Os espaços de decisão ainda carregam barreiras, mas a presença feminina é necessária e transformadora. Busquem formação, articulem-se em redes, fortaleçam-se mutuamente e não se deixem intimidar pelos estereótipos. O caminho exige coragem, mas cada passo fortalece não apenas a trajetória individual, como também o coletivo. Ao ampliar nossas vozes, ampliamos a chance de decisões mais justas, democráticas e sustentáveis.

Como você enxerga o futuro da governança da água no Brasil, em especial se aumentarmos a participação feminina?

Certa vez, Ariano Suassuna disse que “o otimista é um tolo, o pessimista um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”. É nessa perspectiva que enxergo o futuro: desafiador, mas esperançoso. Os desafios são muitos. O Brasil enfrenta uma realidade marcada pela intensificação da crise climática, que se traduz em secas mais prolongadas, enchentes mais severas e maior pressão sobre os sistemas hídricos. Se ampliarmos a participação feminina e de grupos historicamente marginalizados, a governança da água poderá se tornar mais plural, democrática e alinhada aos desafios contemporâneos. Ao ampliar essas vozes, caminhamos para um modelo de governança que não apenas gerencia recursos hídricos, mas que produz justiça socioambiental e intergeracional. Um modelo capaz de enfrentar a crise climática com legitimidade, democracia e resiliência.

 


Assessoria de Comunicação do CBH do Rio Pará:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
Por: Luiza Baggio
Foto: Acervo pessoal e Dulce Tupy

Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pará

Compartilhe